Manifestações clínicas e diagnóstico da Tuberculose

Entender as manifestações clínicas da tuberculose (TB) é fundamental para identificar precocemente a doença e iniciar o tratamento adequado. A TB é um verdadeiro camaleão clínico, podendo afetar diversos órgãos e apresentar sintomas variados. Vamos decifrar suas características mais comuns, começando pelas manifestações clássicas.


1. Sinais e Sintomas Clássicos

Os sintomas principais da tuberculose pulmonar incluem:

  • Tosse por 3 semanas ou mais: Pode ser seca ou produtiva (com catarro).
  • Febre vespertina: Geralmente moderada, sem calafrios e frequentemente não ultrapassa 38,5 °C.
  • Sudorese noturna: É um sintoma típico, associado ao estágio mais avançado da doença.
  • Emagrecimento: Resulta da resposta inflamatória sistêmica e da anorexia comum nesses pacientes.

Esses sinais, muitas vezes negligenciados, devem acender o alerta, especialmente em populações vulneráveis.


2. Diagnóstico Clínico

A tuberculose pode se manifestar em diferentes formas, dependendo do órgão acometido. Abaixo, abordamos as manifestações pulmonares e extrapulmonares.

2.1 Tuberculose Pulmonar

A TB pulmonar é a apresentação mais comum da doença. Dependendo do estágio, os sintomas variam:

  • Forma primária:
  • Geralmente ocorre após o primeiro contato com o bacilo.
  • Mais comum em crianças.
  • Apresentação insidiosa: febre baixa, sudorese noturna, inapetência e irritabilidade.
  • Forma pós-primária (ou secundária):
  • Mais comum em adolescentes e adultos jovens.
  • Tosse seca ou produtiva (mucoide, purulenta ou até hemoptise).
  • Febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento e anorexia.
  • Exame físico: Diminuição do murmúrio vesicular ou mesmo ausculta normal.
  • Forma miliar:
  • Caracterizada por um padrão radiológico específico.
  • Mais comum em imunocomprometidos, incluindo pessoas vivendo com HIV.
  • Sintomas inespecíficos como febre, emagrecimento, astenia e tosse.

2.2 Tuberculose Extrapulmonar

A TB extrapulmonar ocorre em cerca de 20% dos casos e sua frequência aumenta em pacientes com HIV.

  • TB Pleural:
  • Sintomas: Dor torácica pleurítica, febre, tosse seca, astenia e emagrecimento.
  • Líquido pleural com características de exsudato, predominância de linfócitos e elevação de adenosina deaminase (ADA).
  • TB Ganglionar Periférica:
  • Mais comum em PVHIV e crianças.
  • Gânglios cervicais aumentados, indolores, endurecidos ou amolecidos.
  • TB Meningoencefálica:
  • Predomina em crianças e imunossuprimidos.
  • Cefaleia, irritabilidade, febre prolongada e rigidez de nuca.
  • TB Óssea (Mal de Pott):
  • Acomete a coluna torácica e lombar.
  • Sintomas incluem dor local, sudorese noturna e limitação de movimentos.

3. Diagnóstico Bacteriológico

3.1. Baciloscopia Direta

Método simples, acessível e amplamente utilizado para identificar bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR). A técnica mais comum é a coloração de Ziehl-Nielsen.

Pontos-chave:

  • Detecta entre 60-80% dos casos pulmonares em adultos.
  • Sensibilidade reduzida em crianças devido à dificuldade de obtenção de amostras adequadas.
  • Importante para iniciar o tratamento em casos de suspeita clínica e radiológica.

Indicações:

  • Busca ativa em sintomáticos respiratórios.
  • Suspeita de TB pulmonar, independente do tempo de tosse.
  • Monitoramento de cura em pacientes com diagnóstico confirmado.

Amostras e Procedimento:

  • Coletar duas amostras de escarro, preferencialmente ao despertar.
  • Em caso de resultados negativos com alta suspeita clínica, solicitar amostras adicionais.
  • Pode ser aplicada a outros materiais biológicos em casos de TB extrapulmonar.

Resultados:

  • A leitura segue uma escala padronizada de positividade (+++ para maior quantidade de bacilos).
  • Diagnóstico confirmado com baciloscopia positiva e quadro clínico compatível.

Limitações:

  • Outros microrganismos podem ser detectados.
  • Diagnóstico de certeza requer cultura e/ou testes moleculares.

3.2. Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB)

Método moderno que utiliza amplificação de ácidos nucleicos para identificar DNA do Mycobacterium tuberculosis e resistência à rifampicina.

Destaques:

  • Resultado em aproximadamente 2 horas.
  • Sensibilidade: 90% em adultos e 66% em crianças.
  • Detecta bacilos vivos ou inviáveis, sendo limitado em casos de retratamento.

Indicações:

  • Diagnóstico em adultos e adolescentes com TB pulmonar ou laríngea.
  • Triagem de resistência à rifampicina em casos de retratamento e suspeita de falência terapêutica.
  • Diagnóstico de TB extrapulmonar em materiais como líquor, gânglios e outros tecidos.

Amostras Comuns:

  • Escarro, lavado broncoalveolar, lavado gástrico, líquor e gânglios linfáticos.

Resultados Interpretados:

  1. MTB não detectado – Negativo.
  2. MTB detectado sem resistência à rifampicina – TB sensível.
  3. MTB detectado com resistência – TB resistente.
  4. MTB detectado com resistência indeterminada – Repetir o teste.
  5. Resultado inconclusivo – Nova amostra necessária.

Limitações:

  • Menor sensibilidade em TB pediátrica e extrapulmonar.
  • Não indicado para avaliar falência terapêutica.

3.3. Cultura para Micobactérias, Identificação e Teste de Sensibilidade (TS)

Padrão Ouro:

  • A cultura aumenta em até 30% o diagnóstico de TB em pacientes com baciloscopia negativa.

Métodos Disponíveis:

  1. Sólidos (Löwenstein-Jensen e Ogawa-Kudoh):
  • Baixo custo, mas tempo de crescimento mais longo (14 a 30 dias).
  1. Líquidos (MGIT®):
  • Resultados mais rápidos (5 a 12 dias).

Teste de Sensibilidade (TS):

  • Sólido: Resultados em até 42 dias.
  • Líquido: Resistência detectada em 5 a 13 dias.

Fármacos Testados:

  • Isoniazida, rifampicina, pirazinamida, etambutol e estreptomicina.

4. Diagnóstico por Imagem da Tuberculose

4.1. Radiografia de Tórax

A radiografia de tórax é fundamental para a avaliação inicial e o acompanhamento da tuberculose pulmonar (TB), ajudando a identificar padrões radiológicos típicos da doença, como cavidades, nódulos, consolidações, entre outros. Este exame é solicitado a todos os pacientes com suspeita clínica de TB, sendo combinado com testes laboratoriais para confirmação bacteriológica.

Classificação dos Achados Radiológicos

Os achados nas radiografias de tórax são classificados para facilitar a notificação e o acompanhamento do tratamento:

ClassificaçãoAchados
NormalSem alterações indicativas de TB.
SuspeitoAlterações como cavidades, nódulos, consolidações, processo intersticial, etc.
SequelaLesões cicatriciais, bandas, retrações e calcificações.
Outras DoençasPneumopatias não tuberculosas, como DPOC e outras doenças respiratórias.

4.2. Tomografia Computadorizada (TC) de Tórax

A tomografia computadorizada (TC) oferece uma visão mais detalhada, sendo indicada principalmente quando a radiografia inicial é normal ou em casos com complicações ou suspeitas de TB extrapulmonar. Este exame é essencial para diferenciar a TB de outras condições pulmonares, especialmente em pacientes imunossuprimidos.

Alterações Radiológicas na TC

A TC pode identificar tanto sinais de atividade quanto de sequela de TB, com a possibilidade de detectar alterações pequenas ou sutis que não aparecem na radiografia de tórax.

Sinais Sugestivos de TB AtivaSinais de Sequela de TB
Cavidades com paredes espessasCavidades com paredes finas
Nódulos centrolobulares de distribuição segmentarNódulos calcificados
ConsolidaçõesBandas e bronquiectasias de tração
Espessamento das paredes brônquicasEspessamento pleural
Aspecto de “árvore em brotamento”
Massas

Vantagens da TC

  • Maior sensibilidade para detectar pequenas alterações pulmonares.
  • Possibilita diferenciação de outras doenças torácicas.
  • Essencial para acompanhamento de complicações ou sequela após tratamento.

Atenção!!!

Todo paciente diagnosticado com tuberculose deve ser testado para HIV. E caso o teste para HIV seja positivo, o paciente deve ser direcionado ao Serviço de Atenção Especializada (SAE) ou unidades dispensadoras de medicamentos para PVHIV para o início do tratamento antirretroviral (TARV) e continuidade do tratamento para TB. O diagnóstico precoce da infecção pelo HIV tem grande impacto no manejo clínico de ambos os quadros.


Dicas Práticas Medspacy

  1. Em áreas de alta prevalência de TB, qualquer paciente com tosse por mais de 3 semanas deve ser investigado para a doença.
  2. Valorize história de contato com pacientes com TB ativa.
  3. Não descarte TB em pacientes com sintomas inespecíficos, especialmente imunocomprometidos.
  4. Use a radiografia de tórax como exame complementar inicial em todos os casos de suspeita de TB.
  5. Realize a tomografia apenas quando houver suspeita clínica persistente, mesmo com radiografia normal, ou em casos imunossuprimidos.
  6. Registre e classifique corretamente os achados radiológicos para monitoramento e acompanhamento adequado dos pacientes com TB.

A integração entre o diagnóstico clínico, de imagem e os exames laboratoriais é crucial para um diagnóstico preciso e para o monitoramento eficaz da evolução da tuberculose.