Tratamento da insuficiência cardíaca
O manejo da insuficiência cardíaca (IC) é tanto uma arte quanto uma ciência, e o sucesso depende de intervenções rápidas na emergência e de estratégias bem definidas no acompanhamento ambulatorial. Este guia prático aborda o tratamento desde a descompensação até a estabilização a longo prazo, com foco exclusivo em práticas que funcionam.
Insuficiência Cardíaca Descompensada na Emergência
A apresentação mais comum é a congestão pulmonar aguda ou edema agudo de pulmão. Aqui, o mantra é oxigenação, redução de pré-carga e controle da causa subjacente.
Oxigenação e Ventilação:
- Administre oxigênio suplementar para manter a saturação > 90%.
- Use ventilação não invasiva (CPAP ou BiPAP) nos casos de insuficiência respiratória aguda.
Redução da Pré-carga:
- Furosemida IV: Inicie com 20-40 mg, ajustando conforme a diurese e o peso seco estimado do paciente.
- Nitratos (nitroglicerina sublingual ou IV): Dose inicial 5-10 mcg/min, titulação progressiva para alívio de congestão e redução da pressão arterial, se tolerado.
Redução da Pós-carga (quando necessário):
- Nitroprussiato de sódio: Indicado para pacientes hipertensos com congestão grave, com início em 0,3 mcg/kg/min, aumentando conforme necessário.
Suporte Inotrópico (apenas se hipotensão com baixo débito):
- Dobutamina IV: Dose inicial 2-5 mcg/kg/min, ajustando conforme a resposta clínica.
- Em casos refratários, considere noradrenalina para suporte vasopressor.
Monitoramento rigoroso:
- Controle hemodinâmico contínuo.
- Exames laboratoriais (BNP/NT-proBNP, função renal).
- ECG para excluir arritmias.
Transição do Cuidado para o Ambiente Ambulatorial
Uma vez estabilizado, o objetivo passa a ser otimizar o tratamento a longo prazo.
Tratamento Não-Farmacológico
- Dieta e Restrição de Sódio:
- Consumo diário < 2 g de sódio.
- Restrição hídrica (1,5 L/dia) para pacientes com sinais de hipervolemia.
- Exercício supervisionado:
- Reabilitação cardíaca, idealmente com treinamento físico progressivo.
- Vacinação:
- Influenza anual e Pneumococcus a cada 3-5 anos.
- Controle de fatores de risco:
- Cessar tabagismo e evitar AINEs.
Tratamento Farmacológico Baseado em Evidências
- IECA ou BRA (Início e Progressão para Dose-Alvo):
- Captopril: Início 6,25 mg 3x/dia → Dose alvo 50 mg 3x/dia.
- Enalapril: Início 2,5 mg 2x/dia → Dose alvo 20 mg 2x/dia.
- Substitua por BRA (ex.: Losartan) em caso de intolerância ou tosse persistente.
- Betabloqueadores (Introduza após estabilização):
- Bisoprolol: Início 1,25 mg/dia → Dose alvo 10 mg/dia.
- Carvedilol: Início 3,125 mg 2x/dia → Dose alvo 25-50 mg 2x/dia.
- Antagonistas de Aldosterona:
- Espironolactona: Início 12,5 mg/dia → Dose alvo 50 mg/dia.
- Diuréticos de Alça (apenas para controle de sintomas de congestão):
- Furosemida: Início 20 mg/dia, ajustando conforme sintomas e balanço hídrico.
- Hidralazina + Nitratos:
- Alternativa para pacientes com contraindicação a IECA/BRA, especialmente afrodescendentes.
- Ivabradina (frequência cardíaca elevada apesar do betabloqueador):
- Dose inicial 5 mg 2x/dia.
- Anticoagulação:
- Em pacientes com fibrilação atrial ou alto risco tromboembólico.
Monitoramento Regular
- Peso diário: Ganho > 2 kg em 3 dias exige intervenção precoce.
- Função renal e eletrólitos: A cada ajuste de medicamentos ou sinais de descompensação.
Casos Refratários e Intervenções Avançadas
Se o paciente permanece sintomático ou descompensado:
- Terapia de Ressincronização Cardíaca (TRC): Indicado para FEVE < 35% com QRS > 150 ms.
- Dispositivos de Assistência Ventricular: Como ponte para transplante ou terapia paliativa em casos selecionados.
- Transplante Cardíaco: Opção definitiva para pacientes com IC terminal refratária.
