Manifestações clínicas e diagnóstico da HAS
Quando falamos de hipertensão arterial sistêmica (HAS), é essencial entender que essa doença não apresenta sintomas evidentes nas fases iniciais, o que a torna um verdadeiro “assassino silencioso”. Como médicos, precisamos ter um olhar clínico afiado e estar sempre atentos aos sinais que, embora sutis, indicam que algo não vai bem. Vamos destrinchar as manifestações clínicas e o diagnóstico de hipertensão de uma forma prática e focada no que realmente importa no dia a dia da prática médica.
Manifestações clínicas
A HAS, em sua fase inicial, muitas vezes não causa sintomas evidentes, mas com o tempo, as complicações começam a surgir. Aqui estão as manifestações clínicas mais comuns que devemos estar atentos:
1. Dor de cabeça e tontura
Esses sintomas podem ocorrer quando a pressão arterial está significativamente elevada, principalmente se a hipertensão for não controlada. O paciente pode se queixar de dores de cabeça constantes, que geralmente são mais intensas nas regiões occipitais (parte de trás da cabeça). A tontura também pode surgir quando o paciente se levanta rapidamente, uma indicação de que o corpo está tendo dificuldade em ajustar a pressão arterial de forma eficaz.
2. Visão embaçada
O aumento da pressão pode afetar a microcirculação da retina, causando alterações visuais. Pacientes com hipertensão de longa data podem relatar episódios de visão embaçada ou até perda temporária de visão.
3. Fadiga e cansaço
O cansaço excessivo pode ser uma manifestação indireta, já que a hipertensão crônica faz com que o coração trabalhe mais do que o normal, o que resulta em um maior esforço cardiovascular. Essa sobrecarga pode levar a uma sensação de cansaço constante.
4. Sangramento nasal
Pacientes hipertensos, principalmente aqueles com pressão arterial descontrolada, podem se queixar de sangramentos nasais frequentes. Isso ocorre devido ao aumento da pressão nos pequenos vasos da mucosa nasal.
5. Dificuldade para respirar
A falta de controle da hipertensão ao longo do tempo pode afetar o coração, levando a insuficiência cardíaca. Isso pode gerar dificuldade respiratória, principalmente em esforços mais intensos, como subir escadas ou caminhar longas distâncias.
6. Sinais de danos em órgãos-alvo
Na prática, sabemos que a hipertensão crônica afeta órgãos vitais, como o coração, cérebro e rins. Aqui estão algumas dicas para identificarmos esses danos:
- Coração: o paciente pode relatar dor no peito ou sensação de pressão no peito, que pode indicar hipertrofia ventricular esquerda ou até mesmo insuficiência cardíaca.
- Rins: sinais de diminuição da produção de urina, inchaço nas extremidades ou alterações nos exames de função renal podem indicar insuficiência renal.
- Cérebro: alterações neurológicas, como dificuldade de fala, fraqueza em um lado do corpo ou tontura extrema, podem sugerir um acidente vascular cerebral (AVC), que é uma das complicações mais graves da hipertensão.
Diagnóstico da hipertensão arterial sistêmica
O diagnóstico da hipertensão deve ser feito com cuidado, através de uma abordagem sistemática. A pressão arterial pode variar ao longo do dia e em diferentes situações, por isso, a medição deve ser feita de forma correta e em múltiplas ocasiões.
1. Medindo a pressão arterial
Para o diagnóstico de hipertensão, a medição da pressão arterial deve ser feita com um esfigmomanômetro e um estetoscópio. A técnica de medição é crucial para garantir que os valores obtidos sejam precisos. A medição deve ser feita com o paciente em repouso, em uma cadeira confortável, após 5 minutos de descanso. Evite que o paciente fale ou se mova durante a medição. Aqui estão os números que usamos para diagnosticar:
- PA não elevada: Pressão Sistólica (PAS): < 120 mmHg e Pressão e Diastólica (PAD): < 70 mmHg
- PA elevada: Pressão Sistólica (PAS): 120-139 mmHg e Pressão e Diastólica (PAD): 70-89 mmHg
- Hipertensão arterial: Pressão Sistólica (PAS): ≥ 140 mmHg e Pressão Diastólica (PAD): ≥ 90 mmHg
2. Monitoramento Residencial da Pressão Arterial (MRPA)
Se a medição inicial sugerir hipertensão, podemos recorrer à MRPA (Medição Residencial de Pressão Arterial). O paciente utiliza um aparelho confiável em casa, realizando medições por 7 dias consecutivos, 2 vezes pela manhã e 2 vezes à noite, sempre no mesmo horário. Esse método permite uma avaliação mais precisa e evita o fenômeno do “efeito do avental branco”, onde a pressão no consultório pode ser mais alta devido ao estresse do ambiente médico.
3. Monitoramento Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA)
Outra forma de confirmar o diagnóstico é utilizando o MAPA (Monitoramento Ambulatorial de Pressão Arterial), que pode ser feito de duas maneiras:
- MAPA Vigília: O paciente vai até a unidade de saúde para medir a pressão em consultas regulares durante 7 dias.
- MAPA 24hrs: O paciente usa um aparelho portátil que mede a pressão arterial a cada 15 a 30 minutos durante 24 horas. Esse monitoramento contínuo oferece uma visão mais completa das variações da pressão arterial ao longo do dia e da noite.
4. Exames Complementares
Embora a hipertensão seja basicamente um diagnóstico clínico, alguns exames podem ser úteis para avaliar os danos aos órgãos-alvo ou identificar causas secundárias de hipertensão:
- Exames de sangue: para avaliar a função renal (creatinina, ureia), níveis de colesterol, glicose e hormônios.
- Eletrocardiograma (ECG): para verificar a presença de hipertrofia ventricular esquerda ou sinais de isquemia.
- Exames de fundo de olho: para avaliar possíveis lesões nos vasos sanguíneos da retina.
- Ecocardiograma: para avaliar o impacto da hipertensão no coração, especialmente a presença de insuficiência cardíaca ou hipertrofia ventricular.
