Fisiopatologia das infecções do trato urinário

A fisiopatologia das ITUs é essencial para compreender a progressão clínica, identificar os fatores predisponentes e guiar a abordagem terapêutica. Esse processo envolve uma interação dinâmica entre fatores bacterianos e do hospedeiro, com um padrão geralmente ascendente no trato urinário.


Colonização e ascensão retrograda

A maioria das ITUs inicia-se pela ascensão bacteriana retrograda, partindo do períneo, uretra e progredindo para a bexiga (cistite) e, em casos mais graves, alcançando os rins (pielonefrite).

  • Principal agente etiológico: A Escherichia coli uropatogênica (UPEC) é responsável por cerca de 80% das ITUs, devido à sua capacidade de adesão e invasão do epitélio urinário.
  • Fatores de virulência bacterianos:
  • Fimbrias tipo 1 e P: Facilitam a aderência ao urotélio e promovem a formação de biofilmes.
  • Produção de toxinas: Como a hemolisina, que lesiona o epitélio e favorece a invasão.
  • Comunidades bacterianas intracelulares: Atuam como reservatórios para infecções recorrentes, dificultando o tratamento.

Fatores do hospedeiro

A suscetibilidade do hospedeiro é influenciada por fatores anatômicos, imunológicos e comportamentais.

  • Defesas naturais:
    • O fluxo urinário é o principal mecanismo protetor, eliminando bactérias mecanicamente.
    • A produção de mucopolissacarídeos na bexiga dificulta a adesão bacteriana.
    • pH ácido e substâncias antimicrobianas (ex.: lactoferrina e IgA secretora) inibem a proliferação bacteriana.
  • Fatores predisponentes:
    • Anatomia feminina: Uretra curta e proximidade do ânus aumentam o risco de contaminação.
    • Disfunções miccionais: Retenção urinária e obstruções favorecem a colonização.
    • Alterações imunológicas: Diabetes, imunossupressão e gravidez são condições que reduzem a eficácia das defesas naturais.

Resposta inflamatória do hospedeiro

A invasão bacteriana desencadeia uma resposta imune adaptativa e inata:

  • Reconhecimento bacteriano: Receptores como os TLRs (Toll-like receptors) identificam componentes bacterianos, como lipopolissacarídeos.
  • Ativação inflamatória: Há liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, IL-8 e TNF-α), que atraem neutrófilos para o sítio da infecção.
  • Mecanismos bacterianos de evasão: Algumas cepas bloqueiam a migração neutrofílica ou subvertem o inflamassoma, prolongando a infecção e aumentando o risco de complicações.

Progressão para infecções complicadas

Quando os mecanismos de defesa falham, a infecção pode progredir para os rins, levando à pielonefrite, ou mesmo causar urosepse.

  • Fatores que aumentam o risco de complicações:
  • Obstruções anatômicas ou funcionais (ex.: litíase, refluxo vesicoureteral).
  • Uso de dispositivos invasivos (ex.: cateter vesical).
  • Resistência bacteriana aos antibióticos.