Sindrome de Wolff-Parkinson-White

A Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) é uma condição caracterizada por um atalho elétrico anômalo entre os átrios e os ventrículos, chamado de via acessória, que permite a condução elétrica fora do sistema normal do coração. Este atalho pode levar a taquiarritmias perigosas e alterações no eletrocardiograma (ECG). Vamos direto ao que interessa: como identificar e manejar essa síndrome na prática clínica.


Como Identificar WPW no Eletrocardiograma

O diagnóstico de WPW é baseado em alterações eletrocardiográficas características que refletem a pré-excitação ventricular, devido à condução rápida pela via acessória. No ECG, procure os seguintes achados:

  1. Intervalo PR curto (<120 ms): devido à condução precoce para os ventrículos.
  2. Onda Delta: entalhe no início do QRS, que reflete a ativação ventricular precoce.
  3. Alargamento do QRS (>120 ms): causado pela fusão da condução normal e pela via acessória.
  4. Alterações de repolarização ventricular: depressão do segmento ST ou inversão de onda T em algumas derivações.

Dica prática: Identifique o padrão em um paciente assintomático e associe aos sintomas, se houver, para confirmar a síndrome.


Sintomas Associados à WPW

Para que seja considerada uma síndrome (e não apenas pré-excitação assintomática), o paciente deve apresentar sinais e sintomas de taquiarritmias, como:

  • Palpitações
  • Síncope ou pré-síncope
  • Episódios de taquicardia documentados
  • Em casos mais graves: fibrilação atrial com condução rápida pela via acessória, aumentando o risco de fibrilação ventricular e morte súbita.

Classificação Prática

  1. WPW Manifesta: ECG sempre apresenta as características de pré-excitação.
  2. WPW Intermitente: ECG varia entre normal e alterações de pré-excitação.
  3. WPW Oculto: ECG normal em repouso, mas o diagnóstico é feito com estudo eletrofisiológico ou durante episódios de taquiarritmia.

Complicações

As principais complicações envolvem:

  1. Taquiarritmias supraventriculares: taquicardias atrioventriculares ortodrômicas (QRS estreito) ou antidrômicas (QRS largo).
  2. Fibrilação atrial pré-excitada: ritmo rápido com QRS irregular, devido à condução pela via acessória.
  3. Morte súbita: especialmente em pacientes com múltiplas vias acessórias ou condução extremamente rápida.

Manejo Prático

1. Paciente com WPW Assintomático

  • Estratificação de risco:
    • Jovens (<35 anos): considerar estudo eletrofisiológico para avaliar risco de taquiarritmias.
    • Adultos (>35 anos): observação cuidadosa, especialmente se nunca apresentaram sintomas.

2. Paciente com WPW e Sintomas

  • Conduta definitiva:
    • Ablação por cateter: recomendada para pacientes sintomáticos, com alta taxa de sucesso (>90%) e baixa recorrência.
  • Medicação como ponte:
    • Propafenona ou flecainida podem ser utilizadas enquanto se aguarda a ablação.
    • Evitar: betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, adenosina ou digoxina, pois podem exacerbar a condução pela via acessória.

3. Emergências

  • Fibrilação atrial pré-excitada:
    • Choque elétrico sincronizado imediato se o paciente estiver instável.
    • Procainamida ou amiodarona intravenosa em pacientes estáveis.
  • Taquicardia ortodrômica:
    • Manobras vagais como primeira linha.
    • Adenosina IV com precaução, se suspeita de WPW for descartada.

Pontos-Chave

  • Nem todo PR curto é WPW: o diagnóstico exige alterações do ECG mais sintomas.
  • Pacientes assintomáticos requerem avaliação individualizada.
  • WPW com sintomas ou arritmias graves é indicação para ablação da via acessória.
  • Cuidado com medicações que bloqueiam o nó AV sem atuar na via acessória, como betabloqueadores.