Sindrome de Wolff-Parkinson-White
A Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) é uma condição caracterizada por um atalho elétrico anômalo entre os átrios e os ventrículos, chamado de via acessória, que permite a condução elétrica fora do sistema normal do coração. Este atalho pode levar a taquiarritmias perigosas e alterações no eletrocardiograma (ECG). Vamos direto ao que interessa: como identificar e manejar essa síndrome na prática clínica.
Como Identificar WPW no Eletrocardiograma
O diagnóstico de WPW é baseado em alterações eletrocardiográficas características que refletem a pré-excitação ventricular, devido à condução rápida pela via acessória. No ECG, procure os seguintes achados:
- Intervalo PR curto (<120 ms): devido à condução precoce para os ventrículos.
- Onda Delta: entalhe no início do QRS, que reflete a ativação ventricular precoce.
- Alargamento do QRS (>120 ms): causado pela fusão da condução normal e pela via acessória.
- Alterações de repolarização ventricular: depressão do segmento ST ou inversão de onda T em algumas derivações.
Dica prática: Identifique o padrão em um paciente assintomático e associe aos sintomas, se houver, para confirmar a síndrome.
Sintomas Associados à WPW
Para que seja considerada uma síndrome (e não apenas pré-excitação assintomática), o paciente deve apresentar sinais e sintomas de taquiarritmias, como:
- Palpitações
- Síncope ou pré-síncope
- Episódios de taquicardia documentados
- Em casos mais graves: fibrilação atrial com condução rápida pela via acessória, aumentando o risco de fibrilação ventricular e morte súbita.
Classificação Prática
- WPW Manifesta: ECG sempre apresenta as características de pré-excitação.
- WPW Intermitente: ECG varia entre normal e alterações de pré-excitação.
- WPW Oculto: ECG normal em repouso, mas o diagnóstico é feito com estudo eletrofisiológico ou durante episódios de taquiarritmia.
Complicações
As principais complicações envolvem:
- Taquiarritmias supraventriculares: taquicardias atrioventriculares ortodrômicas (QRS estreito) ou antidrômicas (QRS largo).
- Fibrilação atrial pré-excitada: ritmo rápido com QRS irregular, devido à condução pela via acessória.
- Morte súbita: especialmente em pacientes com múltiplas vias acessórias ou condução extremamente rápida.
Manejo Prático
1. Paciente com WPW Assintomático
- Estratificação de risco:
- Jovens (<35 anos): considerar estudo eletrofisiológico para avaliar risco de taquiarritmias.
- Adultos (>35 anos): observação cuidadosa, especialmente se nunca apresentaram sintomas.
2. Paciente com WPW e Sintomas
- Conduta definitiva:
- Ablação por cateter: recomendada para pacientes sintomáticos, com alta taxa de sucesso (>90%) e baixa recorrência.
- Medicação como ponte:
- Propafenona ou flecainida podem ser utilizadas enquanto se aguarda a ablação.
- Evitar: betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, adenosina ou digoxina, pois podem exacerbar a condução pela via acessória.
3. Emergências
- Fibrilação atrial pré-excitada:
- Choque elétrico sincronizado imediato se o paciente estiver instável.
- Procainamida ou amiodarona intravenosa em pacientes estáveis.
- Taquicardia ortodrômica:
- Manobras vagais como primeira linha.
- Adenosina IV com precaução, se suspeita de WPW for descartada.
Pontos-Chave
- Nem todo PR curto é WPW: o diagnóstico exige alterações do ECG mais sintomas.
- Pacientes assintomáticos requerem avaliação individualizada.
- WPW com sintomas ou arritmias graves é indicação para ablação da via acessória.
- Cuidado com medicações que bloqueiam o nó AV sem atuar na via acessória, como betabloqueadores.
