Como ler um eletrocardiograma

Passo 1: Identificação do Exame

Antes de começar a leitura do ECG, é fundamental saber a quem o exame pertence e coletar algumas informações básicas do paciente.

  • Paciente: Verifique o sexo, idade e possíveis comorbidades.
  • Indicação: Conheça o motivo pelo qual o ECG foi solicitado. O contexto clínico ajuda na interpretação.
  • Configuração: Confirme se o papel está ajustado para a velocidade padrão (25 mm/s) e amplitude (10 mm/mV).
  • Data e Hora: Estes dados são importantes para acompanhar a evolução de possíveis alterações no ECG.

Passo 2: Ritmo Cardíaco

Para que o ritmo cardíaco seja considerado sinusal (normal), deve ser guiado pelo nó sinoatrial. Para identificar o ritmo sinusal:

  • A onda P deve ser positiva nas derivações D1, D2 e AVF e negativa em AVR.
  • Todas as ondas P devem ser semelhantes e precederem o QRS.
  • O intervalo entre ondas P deve ser regular.

Atenção: Qualquer variação nesses padrões pode indicar ritmos anômalos, como fibrilação atrial ou ritmo juncional.


Passo 3: Análise da Onda P

A onda P representa a contração dos átrios. Ao analisá-la, observe:

  • Morfologia: A onda P deve ter um formato uniforme.
  • Amplitude: Até 0,25 mV (2,5 quadradinhos) nas derivações periféricas.
  • Duração: Máximo de 100 ms (2,5 quadradinhos).

Essas características podem ajudar a identificar problemas como o aumento atrial.


Passo 4: Intervalo PR

O intervalo PR representa o tempo de condução dos átrios para os ventrículos.

  • Intervalo PR normal: Entre 120 e 200 ms.
  • Segmento PR: Deve ser isoelétrico (nivelado com a linha de base).

Alterações no intervalo PR podem indicar distúrbios de condução.


Passo 5: Frequência Cardíaca

A frequência cardíaca (FC) representa o número de batimentos por minuto. Existem métodos práticos para calcular a FC:

  • Cálculo rápido: Divida 300 pelo número de quadrados grandes entre duas ondas R.
  • Cálculo preciso: Divida 1500 pelo número de quadrados pequenos entre duas ondas R.

Frequência Normal: Entre 50 e 100 bpm. Abaixo de 50 bpm, indica bradicardia; acima de 100 bpm, indica taquicardia.

Para ritmos irregulares, use o método dos 15 quadrados:

  1. Conte os complexos QRS em 15 quadrados grandes (3 segundos).
  2. Multiplique o número de complexos QRS por 20 para obter a frequência cardíaca.

Exemplo: Se houver 6 complexos QRS, a FC será 6 x 20 = 120 bpm.


Passo 6: Complexo QRS

O complexo QRS representa a despolarização dos ventrículos. Na análise do QRS, verifique:

  • Duração: Até 120 ms (3 quadradinhos).
  • Morfologia: Observe a progressão elétrica de V1 a V6 e a transição entre V3 e V4.

QRS alargado pode indicar bloqueios de ramo.


Passo 7: O Eixo Cardíaco

O eixo do QRS mostra a direção da atividade elétrica do coração, geralmente entre -30° e +90°.

Como identificar o eixo:

  1. Encontre a derivação isoelétrica.
  2. Verifique a derivação a 90° dela (técnica do asterisco).
  3. Observe a polaridade.

Dicas:

  • Se D1, D2 e AVF são positivos, o eixo está normal.
  • Se AVF está negativo mas D2 positivo, o eixo ainda é normal.
  • Desvios para esquerda (antes de -30°) ou para direita (após +90°) podem indicar problemas cardíacos.

Passo 8: Segmento ST

O segmento ST é essencial para a identificação de síndromes coronarianas:

  • Normalidade: O ST deve estar nivelado com a linha de base.
  • Alterações: Supra ou infra de ST podem indicar isquemia ou infarto.
  • ST Elevado: Pode indicar infarto com supra, uma emergência médica.

Passo 9: Onda T

A onda T representa a repolarização dos ventrículos. Para avaliá-la, observe:

  • Morfologia: Ascendente lenta e descendente rápida.
  • Amplitude: Até 0,5 mV nas derivações periféricas e 1 mV nas precordiais.
  • Polaridade: A onda T deve seguir a polaridade do QRS.

Observação: Ondas T invertidas podem indicar isquemia.


Passo 10: Intervalo QT

O intervalo QT reflete a despolarização e repolarização ventricular. Para avaliar:

  • QTc: Normal entre 360 ms e 450 ms.
  • Dica Rápida: Divida o intervalo RR ao meio; se a onda T terminar antes da metade, o QT não está prolongado.

Calcular intervalo QT:

  1. Conte o número de quadradinhos pequenos entre o início da onda Q e o final da onda T.
  2. Multiplique o número de quadradinhos pequenos por 40 milissegundos (já que cada quadradinho pequeno equivale a 0,04 segundos ou 40 ms).

Exemplo: Se o intervalo QT mede 10 quadradinhos pequenos: QT = 10 x 40 = 400 ms

Fórmula de Correção do QT:

QTc = QT medido + 1,75 × (FC – 60)