Bloqueios sinoauriculares

Bloqueios sinoauriculares não têm nada a ver com os atrioventriculares. Enquanto os AV envolvem a condução entre átrios e ventrículos, os sinoauriculares tratam de problemas na condução do nódulo sinusal para o átrio. Isso significa que o problema está na geração ou propagação da onda P. Simples assim.

Agora, como identificar no eletrocardiograma e o que isso muda na prática? Vamos lá!


Anatomia na Prática

Para entender o que acontece no ECG, imagine o seguinte:

  1. O nódulo sinusal gera o estímulo.
  2. Esse estímulo passa pela junção sinoauricular.
  3. Só depois disso chega ao átrio, onde vemos a onda P no ECG.

Tudo que acontece antes da onda P (no nódulo ou na junção) não aparece no traçado. Portanto, se o estímulo atrasa ou nem chega ao átrio, o que você verá? Ausência ou alterações na onda P. É isso que você precisa procurar.


Tipos de Bloqueios Sinoauriculares

1. Bloqueio SA de Primeiro Grau

O que é? O estímulo sai atrasado do nódulo sinusal, mas chega ao átrio.

Como vejo no ECG? Não vejo! Isso mesmo, o bloqueio de primeiro grau não aparece no ECG de superfície. Você não vai conseguir diagnosticar.

Na prática: Se você não vê, não se preocupe. O impacto clínico é mínimo.


2. Bloqueio SA de Segundo Grau

Aqui a coisa começa a ficar interessante. Existem dois tipos que você precisa saber identificar:

Tipo I (Wenckebach):

O que é? O intervalo entre os batimentos (P-P) diminui progressivamente até que uma onda P some. Isso causa uma pausa.

O que buscar no ECG? Intervalos P-P encurtando, seguido de uma pausa onde não há P, QRS ou T.

Exemplo prático: Intervalos P-P de 800 ms, depois 700 ms, 600 ms… até que o próximo batimento simplesmente não aparece.

Tipo II:

O que é? O intervalo P-P é fixo até que, do nada, uma onda P falha. A pausa resultante será um múltiplo exato do intervalo P-P normal.

O que buscar no ECG? Ciclos regulares, seguidos por uma pausa exata de dois ou mais ciclos P-P.

Exemplo prático: P-P de 800 ms. De repente, uma pausa de 1600 ms (ou 2400 ms). Isso é tipo II.

Na prática:

  • Tipo I: Normalmente assintomático, mas fique atento se o paciente tem sintomas como tontura ou síncope.
  • Tipo II: Mais grave. Se houver sintomas, já pense em marcapasso.

3. Bloqueio SA de Terceiro Grau

O que é? Aqui o estímulo não sai do nódulo sinusal. Resultado? O átrio não despolariza, e você não vê ondas P no ECG.

O que buscar no ECG? Pausas enormes sem ondas P, QRS ou T.

Diferencial prático: Não dá para diferenciar um bloqueio de terceiro grau de uma parada sinusal total apenas pelo ECG. Ambas mostram assistolia atrial.

Na prática: Se o ritmo não voltar ou não houver escape, o paciente precisa de marcapasso imediatamente.


Resumo Prático

  1. Primeiro grau: Não aparece no ECG. Sem impacto clínico relevante.
  2. Segundo grau, tipo I: P-P encurtando até uma pausa. Monitorar; avaliar sintomas.
  3. Segundo grau, tipo II: P-P fixo, pausa súbita. Sintomático? Pense em marcapasso.
  4. Terceiro grau: Grande pausa no ECG. Sem escape? Marcapasso urgente.