Fibrilação atrial

A FA é caracterizada por uma atividade elétrica desorganizada nos átrios, resultando em contrações atriais ineficazes e ritmo ventricular irregular. Essa condição pode ser assintomática ou apresentar sintomas como palpitações, dispneia, fadiga e intolerância ao exercício.


Classificação da Fibrilação Atrial

  1. Paroxística: Episódios que terminam espontaneamente em até 7 dias, geralmente durando menos de 24 horas.
  2. Persistente: Dura mais de 7 dias e pode necessitar de intervenção farmacológica ou elétrica para reversão.
  3. Persistente de Longa Duração: Episódios que persistem por mais de 12 meses, sem resolução espontânea.
  4. Permanente: Quando há decisão compartilhada entre médico e paciente de não mais tentar restaurar o ritmo sinusal, mantendo o controle da frequência cardíaca.

Reconhecendo a FA no Eletrocardiograma (ECG)

A fibrilação atrial possui características eletrocardiográficas marcantes:

  • Ausência de ondas P.
  • Ondas “f” irregulares: Oscilações na linha de base, mais evidentes em derivações DII e V1.
  • Intervalo RR irregular: Decorrente do ritmo ventricular desorganizado.

O Conceito “AF CARE” no Manejo da Fibrilação Atrial

As diretrizes de 2024 introduziram o conceito “AF CARE”, organizado em quatro pilares para um manejo abrangente:

1. C – Controle das Comorbidades

A abordagem das condições associadas à FA é crucial para reduzir os episódios e prevenir complicações:

  • Hipertensão arterial: Controle ideal entre 120–129/70–79 mmHg.
  • Diabetes mellitus: Controle glicêmico rigoroso.
  • Obesidade: Perda de pelo menos 10% do peso inicial.
  • Apneia do sono: Tratamento com CPAP.
  • Sedentarismo: Estimule atividades aeróbicas regulares, sem excesso.
  • Álcool: Oriente reduzir ou eliminar o consumo.

2. A – Avaliar o Risco de AVC (Avoid Stroke)

A prevenção de AVC é essencial no manejo da FA, baseada no escore CHA₂DS₂-VASc:

  • CHA₂DS₂-VA ≥ 2: Anticoagulação indicada.
  • CHA₂DS₂-VA = 1: Considere anticoagulação.
  • CHA₂DS₂-VA = 0: Não é necessária anticoagulação.

Preferência: Anticoagulantes orais diretos (DOACs), como apixabana ou rivaroxabana.

Evite: Antiplaquetários isolados, exceto em casos específicos.

Nota prática: Use o escore HAS-BLED para identificar fatores de risco para sangramento, mas nunca como justificativa para negar anticoagulação.


3. R – Reduzir Sintomas

A escolha entre controle de ritmo ou controle de frequência deve ser individualizada:

Controle da Frequência Cardíaca:

  • Fração de ejeção normal: Beta-bloqueadores, verapamil ou diltiazem.
  • Fração de ejeção reduzida: Beta-bloqueadores aprovados para insuficiência cardíaca ou digoxina.
  • Meta: Frequência < 110 bpm em repouso.

Controle de Ritmo Cardíaco:

  • FA < 24 horas: Cardioversão imediata.
  • FA > 24 horas: Anticoagulação prévia ou ecocardiograma transesofágico para exclusão de trombos.
  • Manutenção do ritmo sinusal:
    • Fração de ejeção reduzida: Amiodarona.
    • Fração de ejeção preservada: Propafenona ou flecainida.

Ablação por Cateter:

Indicada em FA paroxística sintomática ou em disfunção ventricular relacionada à arritmia.


4. E – Evolução e Reavaliação Dinâmica (Evaluation)

A reavaliação periódica é indispensável para ajustar o manejo:

  • Intervalo recomendado: Primeira reavaliação em 6 meses; depois, anualmente.
  • Reavalie:
    • Novas comorbidades.
    • Sintomas residuais.
    • Riscos embólicos e hemorrágicos.

Mensagem Final

O manejo da fibrilação atrial é multifacetado e exige abordagem individualizada e sistemática. O conceito “AF CARE” simplifica o cuidado, garantindo a integração de controle das comorbidades, prevenção de AVC, alívio de sintomas e reavaliação contínua. Adotar essas práticas assegura o melhor cuidado para cada paciente.