Bloqueio atrioventricular de 2° grau Mobitz tipo I

Esse tipo de bloqueio ocorre quando há falha intermitente na condução dos impulsos entre os átrios e os ventrículos. Caracteriza-se por um padrão específico de progressivo prolongamento do intervalo PR até que um complexo QRS seja “bloqueado” (ou seja, não conduzido).

A principal característica é o caráter cíclico dessa alteração, que frequentemente volta ao início após o QRS bloqueado.


Como Identificar no ECG?

Os critérios para diagnosticar o Mobitz Tipo I são claros e diretos:

  1. Prolongamento Progressivo do Intervalo PR
    • O intervalo PR aumenta gradualmente em cada batimento até que uma onda P não seja seguida por um complexo QRS.
  2. Ausência de Condução da Onda P
    • Após o prolongamento progressivo, ocorre uma onda P que não conduz ao QRS, ou seja, não há despolarização ventricular.
  3. Ciclo Reinicia
    • Após o QRS bloqueado, o próximo intervalo PR volta ao valor mais curto, reiniciando o ciclo.
  4. QRS Normal ou Estreito
    • Na maioria dos casos, o QRS é normal (< 120 ms), pois o bloqueio ocorre no nível do nó atrioventricular.

Diferenciação do Mobitz Tipo II

  • Mobitz Tipo I: Apresenta o padrão progressivo do PR e um QRS normal.
  • Mobitz Tipo II: Intervalo PR fixo com falha de condução intermitente, geralmente associado a QRS alargado e maior gravidade.

Causas e Contextos Clínicos

Este tipo de bloqueio é geralmente devido a um atraso na condução no nó AV e é frequentemente benigno. As causas incluem:

  • Aumento do Tônus Vagal: Pode ocorrer durante o sono ou em atletas de alto nível.[1]
  • Uso de Medicamentos: Como beta-bloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio (verapamil, diltiazem) e digoxina.[2-3]
  • Doenças Infecciosas: Como a cardite de Lyme, que pode ser reversível com tratamento adequado.

Abordagem Prática

  1. Identifique no ECG
    • Analise o padrão cíclico do PR e o QRS bloqueado.
  2. Avalie os Sintomas
    • O Mobitz Tipo I geralmente é assintomático. No entanto, alguns pacientes podem relatar tontura ou pré-síncope.
  3. Correlacione com a Clínica
    • Verifique se há histórico de uso de medicamentos, condições metabólicas ou doenças cardíacas subjacentes.
  4. Exames Complementares se Necessário
    • Ecocardiograma: Avaliar função cardíaca e possíveis cardiopatias estruturais.
    • Testes laboratoriais: Incluem eletrólitos e função tireoidiana.
    • Holter 24h: Útil para identificar bloqueios transitórios ou progressão do padrão.
  5. Monitore e Gerencie
    • Pacientes assintomáticos sem cardiopatias estruturais podem ser apenas acompanhados.
    • Se houver sintomas ou progressão, considerar referenciar para avaliação especializada.

Quando se Preocupar?

Apesar de ser geralmente benigno, atenção deve ser dada em casos de:

  • Progressão para Bloqueios Mais Graves: Principalmente se associado a cardiopatias estruturais.
  • Isquemia ou Infecção Cardíaca: Especialmente se o bloqueio for novo ou em pacientes com infarto recente.
  • Sintomas Significativos: Como síncope ou pré-síncope, que podem indicar comprometimento hemodinâmico.